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Agora sim podemos dizer que passamos pela cidade fantasma mais famosa dos Estados Unidos! Chegamos em Detroit lá perto da meia noite do dia 22 pro dia 23 de Setembro já para dormir do espaço onde iríamos fazer o bate-papo. O lugar chama Trumbullplex (http://trumbullplex.org/) e fica numa vizinhança não muito malacabada da cidade. É um casarão gigante com três andares, porão e um galpão no fundo onde rolam shows, eventos diversos e tem um bar e uma zineteca. Lembra o Espaço Impróprio (um espaço anarquista que habitava a região da Rua Augusta em São Paulo de 2003 a 2011), pois a galera vive nos andares de cima e a parte de baixo é onde rola os eventos. Até o cheiro e a bagunça são semelhantes, mas faz parte (ou não?).

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Fachada e interior do Trumbullplex

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Fachada e interior do Trumbullplex

Mas o que queríamos mesmo é dar uma volta na cidade e ver a desgraça capitalista ao vivo. A história que nos contaram é que Detroit era um enorme polo industrial, principalmente automotivo. Ford tinha uma grande produção de carros e motores lá desde o início do século e por volta dos anos 50 e 60 Detroit foi uma das cidades mais ricas e afluente dos EUA. Mas a partir dos anos 70 a indústria automotiva entrou em crise e levou junto toda a legião de trabalhadorxs que dependiam de seus postos de trabalho. Um ótimo exemplo de como centralização e monopólio colocam nossas vidas nas mãos de uns poucos que vão embora em tempos de crise e deixam populações inteiras a ver navios. Nos anos 80 a cidade foi o cenário do filme Robocop, onde uma Detroit futurística decadente precisa de um gambé cibernético para manter a ordem burguesa. O cenário, pelo menos, se tornou realidade.

20150923_125518A população que chegou a 3 milhões de pessoas agora está por volta dos 700 mil. É como se 75% da população de uma cidade como Belo Horizonte simplesmente fosse embora deixando casas e bairros inteiros abandonados. E quando a população de bairros mais afastados e suburbanos vão embora, sobram poucos clientes para serviços como água e luz. Sendo que quem ficou muitas vezes também não tem como pagar todas as contas em dia. O que levou a uma grande crise pois as empresas começaram a cortar a água de bairros inteiros para não ir a falência. O dinheiro fala mais alto do que o direito de ter acesso a água – como sabem todas as pessoas em Itu, no interior de São Paulo, e como estão aprendendo todas as que vivem na capital paulistana. Talvez seja esse um futuro próximo para nossas cidades no sudeste brasileiro.

IMG_1154Então, para ver esse clima pós apocalíptico, o pessoal do espaço fez um grande passeio de bike com a gente pela cidade. Pegamos umas bikes loucas tipo choper e uma de duas pessoas e partimos. Em muitos bairros, vimos prédios partidos no meio ou com buracos enormes. Vizinhanças que pareciam de classe média alta sem ninguém na rua e arvores nascendo de dentro das janelas. A parte central da cidade é bem podre para os padrões estadunidenses. Mas para nós do brasil, é como qualquer centro velho de um Rio de Janeiro, Salvador ou Porto Alegre. Só que mais chic, claro. E o carro da polícia é todo preto com escrito preto reflexivo e com grade de aço na frente dos faróis. Assustador como o próprio carro do Robocop.

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IMG_1213Passamos também por uma vizinhança tomada por obras de arte bem estranhas e muito interessantes feitas com lixo e materiais de todo tipo. De bonecas a peças de carro. No total são umas três ou quatro ruas cheias de lotes vagos, casas e uns galpões com a arte de um cara chamado Hiedelberg que começou a encher a vizinhança com sua arte para assim atrair pessoas curiosas e turistas e movimentar a região. Isso porque como o bairro, como muitos outros, virou um deserto de casas vazias ocupadas por usuários de drogas e pelo tráfico. A sua arte espontânea que usa materiais que encontra pela cidade foi o modo de trazer novamente outras relações para a região. Dizem que quem mora por ali também ajuda nas suas obras e que ele montou uma espécie de ONG.

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Um passeio que gostaríamos de ter feito mas não foi possível era a visita ao Museu de História de Detroit que esta hospedando uma exposição sobre os 50 anos da revista Fifth Estate (http://www.fifthestate.org/), a revista anarquista mais antiga dos EUA que começou em Detroit em 1965. Um amigo que trabalha na revista queria nos levar pessoalmente para mostrar tudo, mas infelizmente o museu só abre essa exposição no fim de semana e não quiseram liberar uma visita especial para nós. O jeitinho brasileiro não cola muito por aqui.

Depois de suar e se bronzear pedalando, voltamos para comer e nos preparar para a atividade da noite. O debate teve um público um pouco menos que o de costume, mas as perguntas e algumas das falas mais interessantes da viagem. Ouvimos experiências de participantes de grupos locais, como uma senhora anarquista e feminista que faz um trampo com imigrantes e contra despejos na cidade. Com certeza foi a fala mais inflamada e radical da noite. Muito inspirador.

Próximo post, falaremos sobre um dos maiores acervos anarquistas do mundo na Universidade de Michigan. Nesse mesmo canal e nesse mesmo horário.

Até!

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