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Estamos de volta com mais um relato! Em meio a um projeto tão intenso, tem sido inspirador ver o quanto é importante a troca que estamos fazendo. Passamos por várias cidades no fim de setembro, mas uma foi bem especial: Saint Louis, cuja região metropolitana integra a cidae de Ferguson, palco da maior onda de rebelião que explodiu em 2014 contra a polícia e sua ordem de violência racista.

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No dia 28 falamos em um espaço da universidade local da cidade de Blomington, estado de Indiana. Tivemos um debate interessante, mas o espaço não era tão inspirador. O bom foi que pudemos caminhar pela floresta com o pessoal que nos hospedou. Lá, encontramos um foço artificial causado pelo extrativismo mineral20150930_130836 e que agora está abandonado. Um ótimo lugar para nadar, mesmo coom um visual apocalíptico. No mesmo estado, falamos em um café moderninho em Evansville e partimos para Carbondale, Illinóis. Uma das cidades mais hospitaleiras que encontramos, com um infoshop incrível chamado Flyover Infoshop. Além de atividade e muita literatura, tem uma prateleira toda dedicada a medicina herbal, bruxarias e faça-você-mesmx. Tudo a preço livre. Pra ficar ainda melhor, um dos membros é massagista profissional e nos presenteou com uma sessão de massagem! Depois de um mês dentro de uma van, não podíamos desejar nada melhor.

De lá seguimos para Saint Louis, para falar em uma atividade organizada numa universidade modernosa que mais parece um shopping, com praça de alimentação, loja de roupas, eletrônicos e agências bancárias. Bem feio, mas pelo menos é mais honesto pois mostra qual o real papel das instituições de ensino em relação ao mercado. Recebemos o convite para bolar uma fala especial para o evento, abordando as tensões raciais, de gênero e classe nas mobilizações que vivenciamos em cada região da qual viemos. Foi interessante fazer essa troca e citar os movimentos e lutas recente no Brasil, como o movimento Mães de Maio e o protesto no fim de 2014 organizado por diversos movimentos em São Paulo sob o slogan “Ferguson é Aqui”.

Saint Louis, Ferguson e outras cidade da mesma região sofreram um processo parecido com o de Detroit quando empresas e indústrias migraram sua produção para regiões como a Ásia em busca de mão-de-obra barata. De uma região rica, a cidade passou para uma realidade de desemprego em masa, êxodo e bairros abandonados. E grande parte da população que ficou por lá pertence às camadas mais pobres e às populações negras e latinas. É fácil encontrar bairros abandonados e destruídos como em Detroit. Tanto que fomos no hospedar em uma rua inteira ocupada por anarquistas que tomaram várias casas e montaram uma grande comuna em um quarteirão fechado. Na nossa última noite lá, saímos de carro pelas ruas de Ferguson para mais um passeio turístico revolucionário. Fomos de carro lentamente com uma pessoa que esteve presente nos dias intensos de protestos após a morte do jovem Michel Brown, assassinado pela polícia. Vimos o ponto exato onde Brown foi morto, o supermercado que, segundo a polícia, o jovem teria roubado uma carteira de cigarro. Na mesma avenida principal onde mercados, lojas e outros estabelecimentos foram queimados e saqueados e o ponto que virou o local oficial onde era a concentração de todos os protestos ao longo dos meses que se seguiram antes de se alastrar por todo o país. Em um ponto, vimos a marca no chão dos pneus e metais derretidos que marcaram a calçada depois que uma das primeiras viaturas policiais foi queimada até não restar quase nada. Por último, vimos a prefeitura que foi atacada diversas vezes por manifestantes.

Muitos grupos amardos fizeram a contenção e impediram a polícia de acabar com os protestos. Em compensação, grupos conservadores chamados Oath Keepers (algo como, “mantedores do pacto”), compostos por ex-militares, pessoas de classe média ou trabalhadora, inclusive pessoas negras, patrulhavam as ruas como uma milícia armada para manter a ordem e impedir os quebra-quebras. Um dos amigos desses camarada que nos levou até o local ficou no meio do fogo cruzado entre manifestantes e policiais e levou três tiros. Por sorte sobreviveu mesmo com uma bala atingindo seu coração. Foi muito intenso ver todos esses cenários e ouvir de camaradas sobre como foi a repressão e os conflitos nas ruas. De qualquer forma, mudanças e passos rumo ao nosso empoderamento e libertação muitas vezes são dados quando pessoas assumem os riscos de enfrentar e expor as opressões desse mundo em que vivemos. Michel Brown será lembrado e sua morte será combustível para muitas revoltas, assim como Amarildo, Cláudia e muitas outras pessoas que ficaram para trás mas jamais esquecidas.

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