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Saindo de Detroit paramos na cidade de Ann Arbor para visitar um dos lugares mais interessantes dessa viagem: a coleção Joseph Antoine Labadie, um acervo de materiais e publicações anarquistas que fica na Biblioteca da Universidade de Michigan. É talvez o segundo maior acervo do mundo e o mais completo disponível para pesquisa. Basta marcar uma visita. E foi o que fizemos!20150924_162124

A coleção começou como um acervo pessoal do anarquista Joseph Antoine Labadie de Detroit. Ele era editor de um jornal e começou a guardar materiais que produzia e trocava com outras pessoas pelo país pelo mundo. Em 1911 doou sua coleção para ser conservada e ampliada dentro da Universade. Desde então, a coleção abriga materiais anarquistas, LGBTT e de diversas lutas sociais radicais. Desde livros, jornais, cartas, posters e materiais pessoais. Uma parte especial é o que nossa amiga chama de “efêmeros”, que são panfletos, flyers e materiais de divulgação para eventos ou greves que geralmente vão para o lixo mas, assim como livros, contam a história dos movimentos.

A responsável pelo acervo é uma anarquista que faz um trabalho de conservação, organização e curadoria do que chega por lá desde 1984. Escrevemos para marcar uma visita no meio da nossa rota e ela pareceu muito animada em receber um “grupo de anarquistas internacionais”, nas palavras de um colega que nos recebeu.

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Nossos dedinhos sujos tocando os papéis que um dia tia Emma carregou no bolso

Para ver os materiais e fazer uma pesquisa é necessário marcar antes e dizer o que você procura, pois o acervo é enorme e ocupa quase todo um andar do prédio. Então, é melhor evitar que pessoas fiquem por lá perdidas sem saber o que querem no meio de um labirinto de materiais frágeis e raros. Chegamos e logo fomos para uma sala onde não se pode levar mochilas, apenas cadernos para escrever e câmeras. O pessoal leva em um carrinho os materiais disponíveis relacionados aos temas que pedimos.

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Carta de Berkman para Emma Goldman

Por e-mail, pedi materiais sobre as lutas anarquistas no Brasil do início do século XX, pois queria ver se encontrava materiais sobre a greve geral de 1917, que foi protagonizada pelo movimento operário anarquista da época em São Paulo. Infelizmente, os jornais mais antigos que tinham disponíveis eram da década de 30. Mesmo assim, foi muito interessante ver cópias dos jornais A Lanterna e A Plebe por lá, ler as notícias e folhear alguns livros velhos. Cada pessoa do nosso grupo pediu uma coisa. Um, que está escrevendo uma série de bibliografias e histórias de vida de anarquistas pediu materiais relacionados ao anarquista italiano Errico Malatesta, outros pediram coisas diversas de seus países, como República Checa e Suécia. E outra amiga queria ver materiais sobre Emma Goldman, anarquista nascida no antigo Império Russo e que atuou bastante nos Estados Unidos. Foi surpreendente tudo o que vimos, pois além de textos e notícias, o acervo conta com materiais pessoais, como passaporte e carteira de identidade de Emma, cartas escritas ou recebidas por ela. Como uma carta escrita por seu companheiro, o anarquista Alexander Berkman, enquanto ele estava na prisão. Foi muito estranho e incrível poder ver e tocar esses materiais e sentir todas essas histórias aparecendo na nossa frente como se ouvíssemos da própria boca das pessoas que as viveram.

20150924_145618 20150924_14502220150924_14365820150924_14425620150924_144309 20150924_150142 20150924_15014920150924_152108

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Aproveitamos a visita para deixar alguns materiais que trazíamos conosco. Afinal, a história continua e estamos fazendo ela agora mesmo! Deixamos cópias do projeto Para Mudar Tudo em todas as línguas que tínhamos em mãos – isto é, cerca de 6 das 26 versões. Além disso, deixei alguns posters que tinha do projeto e outros zines brasileiros. Nosso camarada da CrimethInc deixou uma pilha de materiais, como revistas, zines, posters, adesivos, marcadores de páginas e outras coisas raras e muito antigas produzidas pelo coletivo desde seu início nos anos 90. Foi legal também poder ver esses materiais ali, pois são coisas que não tinha visto também, por já estarem fora de catálogo há mais de uma década.

20150924_161038 20150924_153646Para quem quer pesquisar e revisitar a história de lutas anarquistas no Brasil, existem coleções organizadas e gerias por anarquistas como no Centro de Cultura Social ou a Biblioteca Terra Livre em São Paulo. Há também um grande acervo na Universidade de Campinas que leva o nome do anarquista brasileiro Edgar Leuenroth, que editou os jornais A Lanterna e A Plebe. Abaixo estão alguns links.

Por enquanto é só. Internet está ficando mais escassa e a convivência real está falando mais alto. Então desculpe se os relatos ficarem mais espaçados. Em breve relatos sobre a visita a Chicago, onde visitamos a primeira ocupação anarquista nessa tour e fomos ao cemitério onde estão Emma Goldman e Lucy Parsons, além do memorial aos Mártires de Chicago.
Até!

Acervo Edgar Leuenroth na Unicamp

Centro de Cultura Social – SP

Biblioteca Terra Livre

Coleção Joseph Antoine Labadie na Universidade de Michigan

Posters e arquivos digitalizados

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